CARLOS VERGARA: A DIMENSÃO GRÁFICA

Uma outra energia silenciosa.

A obra plástica de Carlos Vergara começa a ser desenvolvida com vigor e rigor a partir dos anos 1960. Sua presença no conjunto da produção brasileira já era então notável: o artista participa das Bienais de São Paulo de 1963 e de 1967; de mostras de importância histórica como Opinião 65, Opinião 66 e Nova Objetividade Brasileira, em 1967; de diversos Salões de Arte realizados no país, e ainda de mostras internacionais como a Bienal de Paris de 1969.
Nos anos 1970, sua obra foi objeto do olhar de Hélio Oiticica:

“esse foi o início e sempre o é :
anotações gráficas
DESENHO
como ponto de partida e anotação programática de uma nova etapa..... ”.

O pensamento de Oiticica nos leva a considerar que a obra de Vergara, construída ao longo de cinco décadas com diversidade e intensidade de meios expressivos, reafirma a presença de uma dimensão gráfica que não se limita a um momento isolado deste processo. E mais: nesta perspectiva, a dimensão gráfica é um conceito que não se refere apenas àquelas obras realizadas através de técnicas gráficas tais como a gravura (litogravura, serigrafia e metalogravura), a monotipia e mesmo a fotografia. A dimensão gráfica refere-se aqui ao campo da linguagem, e não ao campo das técnicas vinculadas às diversas grafias, matrizes e impressões. O foco desta mostra está no caráter sintético, direto e linear da expressão gráfica que atravessa com vigor a obra desse artista plural. Vergara não será nunca apenas; ele será sempre também. Afinal, na sua produção plástica, coexistem, em um processo de contínua transformação criativa, as distintas dimensões, gráfica e pictórica. E elas dialogam.

O olhar se concentra aqui na dimensão gráfica. Dimensão menos visível. Silenciosa, mas portadora de fluxo de energia criativa. É esse olhar que pretende revelar uma dimensão bastante desconsiderada tal como o fez, em 1993, a exposição Silent Energy: the new art from China realizada por David Elliott no Museum of Modern Art /Oxford. Trata-se, sem dúvida, de um desafio: mas existe arte sem risco?

Rio de Janeiro, outubro de 2009
George Kornis (curador)

Trabalhos expostos

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Projeto Educativo

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A dimensão gráfica da obra de Carlos Vergara: primeiras reflexões

George Kornis

A obra plástica de Carlos Vergara começa a ser desenvolvida com vigor e rigor a partir dos anos 1960 e sua presença no conjunto da produção brasileira já era notável neste período: participa de Bienais de SP (1963 e 1967), de mostras de importância histórica no Brasil (Opinião 65 ; Opinião 66; Nova Objetividade Brasileira de 1967), de diversos Salões de Arte realizados no país e de mostras internacionais (Bienal de Paris 1969). E já neste período sua obra era objeto da atenção de Hélio Oiticica que sobre ela escreveu o seguinte : "esse foi o início e sempre o é : anotações gráficas DESENHO
Como ponto de partida e anotação programática de uma nova etapa ...".

(Oiticica, H in ABC/ FUNARTE , 1978)

Este pensamento de Oiticica nos conduz, três décadas depois de sua expressão escrita, a construir a seguinte hipótese :

A obra de Vergara, construída ao longo de cinco décadas de trabalho, reafirmou que, a par da diversidade dos meios expressivos incorporados nesta vasta produção em arte, a presença desta dimensão gráfica não se limitou à gênese deste processo. E mais: nesta perspectiva, a dimensão gráfica não se limita àquelas obras realizadas através de técnicas gráficas tais como a gravura (litogravura, serigrafia e metalogravura), a monotipia e mesmo a fotografia. A dimensão gráfica, dada que relativa ao campo da linguagem (e, portanto, não apenas ao campo das técnicas vinculas às diversas grafias, matrizes e impressões), estaria contida em um dos meios expressivos que atravessam toda a obra de Carlos Vergara - o desenho.

Esta hipótese pressupõe o enfrentamento de alguns desafios:

- Desenvolver o conceito de dimensão gráfica enquanto uma categoria inclusiva mas que entretanto estaria apta a estabelecer uma distinção face à dimensão pictórica. Todavia, vale notar que a distinção não se opõe à coexistência tal como evidente, por exemplo, em obras recentes de Carlos Vergara nas quais monotipias e pinturas se integram na produção de uma imagem expressiva de um pensamento plástico.

- Organizar a partir de um conjunto de trabalhos já realizados (composto por trabalhos do Ateliê Vergara e de várias coleções privadas) e mesmo de trabalhos em vias de execução um conjunto articulado de núcleos de observação em torno dos quais se estruturaria uma exposição orientada para tornar mais evidente a importância da dimensão gráfica na obra de um artista que foi dominantemente percebido pela bibliografia especializada como autor de uma obra exclusivamente (ou quase) pictórica.

- Ancorar também, no quadro desta exposição, um conjunto de outras atividades orientadas para construir uma cadeia cognitiva centrada na informação, reflexão, debate, produção e difusão de conhecimento. Portanto a exposição envolveria projeções de filmes e vídeos, a realização de mesa(s) redonda(s) que estimularia(m) uma relação reflexiva em torno dos conteúdos apresentados, a edição de um catálogo com imagens e textos além de uma documentação das atividades realizadas no curso deste processo de produção de conhecimento.

Não serão poucas nem pequenas as dificuldades e as adversidades envolvidas neste projeto. No entanto, vale lembrar, com Hélio Oiticica, que da adversidade vivemos. Portanto, não podemos adiar iniciativas orientadas para a plena realização deste projeto que articula simultaneamente questões conceituais e operacionais. No tocante aos núcleos de observação podemos partir do princípio de que eles são unidades de agregação de obras pautadas pela diversidade de meios expressivos, mas que são unidades pois tem pelo menos um eixo estruturante.

Neste sentido podemos começar propondo um núcleo de observação que designaremos "Indivíduos e coletividades"que agregará imagens centradas na figura humana com suas identidades e diferenças que, afinal, são abundantes na obra de Carlos Vergara; fotografias, desenhos, serigrafias, litografias e objetos tridimensionais que reunirão trabalhos expressivos desta produção; vale lembrar que imagens do Carnaval (coletivas e individuais) devem estar presentes neste núcleo mas imagens menos evidentes como as máscaras e os capacetes devem também ser presenças relevantes neste núcleo; cabe ressaltar que poderão ser incluídos trabalhos de outros artistas em cuja obra este tema seja relevante como por exemplo Rubens Gerchman (que tão bem trabalhou com o tema de coletivos humanos), Roberto Magalhães (que tão bem trabalhou com individualidades humanas) isto só para mencionar artistas de uma mesma geração. O contraponto de outros artistas de uma mesma geração poderá ser um instrumento para apontar uma eventual tendência geracional ou mesmo singularidades de determinados artistas.

Um outro núcleo de observação que cabe ser proposto pode ser designado como "Espaço e Tempo" e ele deverá agregar imagens relativas à paisagem, a símbolos nacionais como as bandeiras e a referencias de memória (individual e coletiva). Imagens relativas a estes temas são também uma forte presença na obra de Carlos Vergara e aqui também fotografias, desenhos, painéis recortados, monotipias e objetos tridimensionais reunirão trabalhos expressivos desta produção; vale aqui ousar considerar os "envelopes" tão característicos da obra de Carlos Vergara enquanto expressões de memória pois, afinal, eles expressam não só um desejo de comunicação interpessoal mas, também, algum relato do passado e do presente isto sem mencionar algum projeto de permanência. Neste sentido, os envelopes estão referidos ao espaço e ao tempo em simultâneo e sua inclusão no núcleo "Espaço e Tempo" é mais do que pertinente. Uma ousadia adicional é propor a inclusão neste núcleo tanto dos trabalhos em monotipia que contenham referências a construções e a pavimentações do passado quanto aos objetos tridimensionais que, a exemplo daqueles referidos à "Série das Missões", expressem um pensamento plástico sobre a relação tempo/espaço. Neste núcleo poderão também ser incluídos, tal como no núcleo "Indivíduos e Coletividades", trabalhos de outros artistas em cuja obra este tema é relevante como, por exemplo, Antonio Dias (que tão bem trabalhou com territórios diversificados) e Glauco Rodrigues (tão bem trabalhou com a memória individual e coletiva). Aqui , tal como no núcleo anterior, o contraponto pode ser um instrumento interessante de investigação.

Um terceiro núcleo de observação que cabe ser proposto pode ser designado como "Cor e Forma"e ele deve agregar imagens relativas ao campo da abstração. As imagens deste campo, que tem uma notável presença na obra de Carlos Vergara, devem advir de fotografias, desenhos, serigrafias, gravuras, monotipias, objetos tridimensionais e técnicas mistas (e aqui estou me referindo, em especial, a monotipias combinadas com pinturas). Neste núcleo poderão também ser incluídos- tal como nos núcleos "Indivíduos e Coletividades" e "Espaço e Tempo" - trabalhos de outros artistas em cuja obra este tema é relevante como, por exemplo, Ivan Serpa, Aluísio Carvão e Eduardo Sued que em suas pesquisas cromáticas e formais afirmaram elementos importantes de suas obras plásticas. Aqui, tal como nos núcleos anteriores, o contraponto mesmo que com artistas de outra geração pode ser um instrumento interessante de investigação.

Um quarto núcleo de observação que cabe ser proposto pode ser designado como "Materiais, Processos e Suportes" e ele deve agregar imagens relativas aos diversos processos de pesquisa presentes de forma nítida na obra de Carlos Vergara. Aqui o foco deve estar nas pesquisas relativas a pigmentos, a modalidades de impressão, a diversidade de técnicas e suportes e, ainda, o uso articulado de diversas linguagens no corpo de um único trabalho como, por exemplo, no uso combinado da fotografia e da escultura na produção dos objetos tridimensionais além da já mencionada coexistência da monotipia com a pintura. Neste núcleo poderão também ser incluídos, tal como nos núcleos "Indivíduos e Coletividades", "Espaço e Tempo" e "Cor e Forma", trabalhos de outros artistas em cuja obra este tema é relevante como, por exemplo, Franz Krajberg e Ligia Pape que em suas pesquisas de materiais, processos e suportes afirmaram elementos importantes de suas obras plásticas. Aqui, tal como nos núcleos anteriores, o contraponto pode ser um instrumento interessante de investigação.

A apresentação preliminar destes quatro núcleos de observação pretende iniciar uma reflexão mais aprofundada do processo de construção deste projeto. Nesta perspectiva, vale lembrar que quatro núcleos podem formar quatro vértices de um quadrado e a área central deste quadrado poderá abrigar um trabalho aéreo (composto por impressões em lenços) de Carlos Vergara e atuar enquanto uma ágora conferindo centralidade à reflexão e ao debate. Vale lembrar que a presença de um pé direito alto no local destinado para a realização da exposição favorece a presença de pelo menos um trabalho aéreo de grande porte atuando na articulação dos quatro núcleos de observação. Ademais este trabalho permite a circulação dos expectadores entre os quatro núcleos de observação que compõem a mostra.

Finalmente, creio que vale ter presente que esta proposta parte de um princípio que pressupõe a diversidade e a densidade de conteúdos. Ajustes podem e devem ser feitos, mas me parece que a concepção mais geral da mostra começa a apresentar sinais de maturidade.

Rio de Janeiro, 12 de junho de 2009.

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